Dilma Roussef

Dilma Roussef

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A Revolução Farroupilha

Antes de entrarmos no tema “Revolução Farroupilha”, para um melhor entendimento, acreditamos ser necessário, fazermos um pequeno enfoque da situação brasileira e vizinhos platinos, nas décadas anteriores, cujos ensinamentos, foram alicerçados nas obras de Moacyr Flores, Dante de Laytano, Alfredo Varella, Sandra Jatahy Pesavento, História Ilustrada do Rio Grande do Sul, Rio Grande Histórico, e, noutros autores.
Em 1801, quando foi firmado o Tratado de Badajoz na Europa, nada ficou estabelecido sobre as Missões, consagrando assim a já existente posse lusa nessa área.
Nesse ano, Manuel dos Santos Pedroso e José Borges do Canto, expulsaram os últimos espanhóis que viviam na região missioneira do Rio Grande do Sul, conquistando esse território em definitivo para o domínio Português.
A Corte Portuguesa transferiu-se para o Brasil no dia 18/01/1808, sendo que em 1809, D. João VI, realiza sua primeira ofensiva no mercado platino.
A independência Argentina aconteceu em maio de 1810, sendo que em 1811, tropas gaúchas e portuguesas, formando o “Exército Pacificador”, combateram contra o exército liderado por Artigas, uma vez que D. João VI, continuava tendo interesse econômico no Prata.
O “Exército Pacificador”, influiu na configuração do Rio Grande do Sul, a começar pela incorporação da maior parte do distrito de Entre-Rios, cuja região era formada pelos rios Uruguai, Quaraí e Arapeí, onde Artigas tinha seu reduto, anexando ao território português, as terras onde hoje se encontram os Municípios de Uruguaiana, Santana do Livramento, parte de Rosário do Sul e D. Pedrito.
Com a saída do “Exército Pacificador” da Banda Oriental, em fevereiro de 1815, rebeldes comandados por Artigas tomam Montevidéu. Em conseqüência, bandos de milicianos artiguistas cruzam a fronteira, hostilizando moradores e saqueando fazendas no lado rio-grandense, fazendo com que muitos proprietários abandonassem suas terras.
Ciente dos riscos que a população sulina corria, o Rei D. João VI, ordenou mais uma vez a invasão da Banda Oriental. Para tanto, o governador D. Diogo de Souza, decretou uma mobilização geral para todos os maiores de 16 e menores de 60 anos, formando as forças locais. Em auxilio as tropas brasileiras, chegou uma forte divisão de voluntários Reais, formada por 4.800 veteranos de guerras européias, chefiados pelo Gal. Carlos Frederico Lecór, os quais deslocaram-se para o Sul em março de 1816.
A luta entre o exército português/brasileiro, contra Artigas dura mais de 3 anos, até a derrota das últimas forças comandadas por Frutuoso Rivera, no Passo del Catalán, e, em Tacuarembó, quando cessa a resistência contra a invasão lusa da Banda Oriental e o território é unido ao Império Português, com o nome de Província Cisplatina, em 1820.
Em 07/09/1822, D. Pedro I, proclamou a Independência Brasileira de Portugal. Apesar do Brasil encontrar-se independente, o Imperador manteve muitos portugueses em postos importantes no Governo Imperial, sendo que em 1830, 72% do Oficiais do Exército Nacional, eram lusos.
No ano de 1824, após dissolver a Assembléia Constituinte, D. Pedro I, outorgou a 1ª Constituição Brasileira, concedendo-lhe poderes para reunir em suas mãos o Poder Executivo e o Moderador, enfraquecendo e tornando quase inoperantes os Poderes Legislativo e Judiciário, contrariando frontalmente os princípios liberais. Nesse ano, o Imperador nomeou o 1º Presidente da Província do Rio Grande do Sul, na pessoa do Sr. José Feliciano Fernandes Pinheiro.
A Cruzada Libertadora, criada em abril de 1825, liderada por Juan Antônio Lavalleja, inicia a sublevação da Banda Oriental contra o domínio brasileiro, começando a Guerra Cisplatina, estendendo-se até 27 de agosto de 1828, ocasião em que foi assinado o tratado de paz, dando origem à República Oriental do Uruguay.
Nessas guerras contra uruguaios e argentinos, houve a participação dos futuros líderes da Revolução Farroupilha, como são os casos de Bento Gonçalves da Silva, Bento Manoel Ribeiro, Antônio de Souza Neto, João Antônio da Silveira e Davi Canabarro, salientando-se que o comando geral das tropas brasileiras, sempre eram confiadas a oficiais de fora da Província, cujo fato causava desconforto aos rio-grandenses.
A atitude ditatorial de D. Pedro I, enfraquecendo os Poderes Legislativo e Judiciário, fez com que muitos liberais que o apoiavam anteriormente, passassem para a oposição.
Na Assembléia Provincial existiam os Liberais Exaltados, também denominados de Farroupilhas ou Farrapos, com significado de revolucionários, além dos Liberais Moderados, conhecidos por Chimangos, também existindo os Liberais Restauradores, identificados como Caramurus. Em 1831, circulavam no Rio de Janeiro os jornais intitulados “Jurujuba dos Farroupilhas e Matraca dos Farroupilhas”, sendo que em 1832, Luís José dos Reis Alpoim, fundou o Partido Farroupilha em Porto Alegre.
Antes disso, em setembro e outubro de 1824, rebelaram-se as províncias de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas. Mais tarde Minas Gerais, Grão Pará, Bahia, Maranhão e o Rio Grande do Sul também se revoltaram. Os revoltosos não aceitavam mais a nomeação do presidente das províncias pelo Imperador, queriam elegê-lo na forma de governo republicano. Em resposta, o Império esmagou a Confederação do Equador, enforcando seus líderes e fuzilando o frei Caneca.
As políticas equivocadas desenvolvidas por D. Pedro I, aumentou sua impopularidade, principalmente entre os rio-grandenses, já que desde muitos anos, a Província de São Pedro tinha sido transformada num acampamento militar, eis que os homens daqui eram os que contribuíam com a maioria dos soldados, cavalhada e gado para enfrentar os inimigos do prata, onde as leis do aboletamento e da requisição de alimentos não garantiam o pagamento de indenização.
Finalmente em 07/04/1831, não tendo mais apoio das tropas brasileiras para debelar as agitações populares provocadas pelos farroupilhas, o Imperador abdicou em favor de D. Pedro de Alcântara, que tinha apenas 5 anos de idade, iniciando a Regência Trina Permanente.
Posteriormente, o ato adicional de 12/08/1834, concedeu mais autonomia às províncias, transformando seus Conselhos, meramente consultivos, em Assembléias Legislativas, que poderiam elaborar leis sobre assuntos civis, judiciais e eclesiásticos.
Mesmo diante desse pequeno avanço, a inconformidade dos rio-grandenses contra o Império era enorme, sendo que, o início da Revolução foi feita dentro do próprio recinto da Assembléia Legislativa. Bento Gonçalves, Domingos José de Almeida, José Mariano de Matos, José de Paiva Magalhães Calvet, Olivério José Ortiz, Marciano Ribeiro, Sá Brito e outros mais eram deputados farroupilhas que estabeleceram com grande decisão a reação contra o outro poder.
Na tarde de 19/09/35, foram vistos nos morros ao Sul da Várzea, na Capital, um Piquete de Cavalarianos Farroupilhas, compostos de 200 homens armados, liderados por José Gomes Vasconcelos Jardim e Onofre Pires da Silveira Canto, prontos para invadirem a Cidade.
Nessa noite de 19/09/1835, um piquete da Guarda Nacional, composto de 16 membros, comandados pelo Major e Visconde de Camamu, pelos caminhos da Azenha, resolveram procurar o acampamento farrapo. Quando entraram numa ponte que existia sobre o riacho Dilúvio, foram interceptados por 6 sentinelas, comandados pelo Cabo Rocha.
Nessa primeira refrega do decênio farroupilha, os sentinelas feriram a lança 4 guardas nacionais, morrendo o tenente quartel-mestre Antônio José da Silva Monteiro, de apelido Prosódia, proprietário do jornal legalista Mestre Barbeiro.
A nossa historiografia, estabelece que o começo da Revolução Farroupilha aconteceu em 20/09/1835, data em que Antônio Rodrigues Fernandes Braga, então Presidente da Província, de madrugada, juntamente com sua família, abandonou Porto Alegre, dirigindo-se na canhoneira Rio-Grandense e no Brigue norte-americano Trafalgar, para a cidade de Rio Grande. Foi empossado em seu lugar o novo Presidente-Dr. Marciano Pereira Ribeiro, chefe do Partido Farroupilha na Província.
Em princípio, a revolução liberal tinha vencido, cujos líderes ficaram aguardando a reação do governo central, sendo que os Farrapos não o temiam, porque o regente recém-eleito, Diogo Antônio Feijó, era chefe do Partido Farroupilha em São Paulo.
Em 1836, na Batalha da Ilha do Fanfa, Bento Gonçalves e demais líderes farroupilhas são presos e levados para o Rio de Janeiro. Entretanto, no dia 11/09/1836, após a retumbante vitória sobre os Imperiais na Batalha do Seival, o Gal. Antônio de Souza Neto proclamou a República Rio Grandense, sendo que em 05/11/1836 a Câmara de Piratini com 6 vereadores republicanos e oficiais farrapos proclamaram a independência política da província, elevando-a à categoria de estado livre e soberano.
Bento Gonçalves da Silva foi o principal líder farroupilha, tendo sido também Presidente da República Rio-Grandense, bem como José Gomes de Vasconcelos Jardim e José Mariano de Matos. As capitais da República foram Piratini, Caçapava do Sul e Alegrete, existindo ainda na época, mais 11 cidades, sendo que a Paz de Ponche Verde, foi firmada por Davi Canabarro e Caxias no dia 28 de fevereiro de 1845.
Durante o decênio farroupilha aconteceram 118 combates, com 59 vitórias para os farroupilhas e 59 vitórias para os imperiais, com mais de 4.000 mortos, esclarecendo-se que durante a guerra, na maioria dos combates, as armas mais usadas, principalmente pelos farrapos, eram lanças e adagas, nas famosas cargas de cavalaria.
Historiadores como Moacyr Flores, Dante de Laytano, Olyntho Sanmartin, Souza Docca, Otelo Rosas, Walter Spalding e Assis Brasil, classificam o 20 de setembro como uma luta pela liberdade e pelo nativismo e o nacionalismo, pois a república só foi proclamada quase um ano depois.
Os farroupilhas pretendiam que cada província elegesse seu presidente, elaborasse suas leis e os impostos recolhidos deveriam permanecer no município arrecadador e não serem levados para socorrer outras províncias. Queriam também a autonomia municipal, concedendo às Câmaras a função legislativa. Também pretendiam implantar uma república federativa, podendo as demais províncias ligarem-se por federação ao novo estado.
Os farrapos também queriam escolas, estradas e pontes, uma vez que, mesmo ainda não existindo automóveis, as estradas eram necessárias para o transito regular das carretas, carroças, diligências, tropas de gado, muares e cavalhada. Exigiam também a diminuição dos impostos cobrados e melhor preço para os principais produtos daqui, que era o charque, o sebo, o couro e o trigo.
Portanto, a revolução farroupilha foi um movimento liberal que pretendia a liberdade garantida pelas leis, a federação com a autonomia da província e do município, e o controle do poder do estado pelos representantes do povo, além da diminuição da carga tributária e uma valorização dos produtos rio-grandenses.